23 de Outubro de 2011

com uma pantera


Fico com a gata a ver o mundo
pela nesga da janela.
A chuva finalmente chegou.
O vento dos últimos dias faz
mais sentido, as árvores despem-se
e eu fico com a gata a olhar pela
janela o mundo, eu bailando
com histórias de guerras e amores
antigos, os olhos da gata dançando
com o vento que canta nas folhas
através da luz quebrada do candeeiro
e uma calma de noite de domingo
em Lisboa: o meu amor foi embora
e ficamos nós a ver o mundo.

13 de Setembro de 2011

ela, o tempo



Como dois felinos levemente
domesticados brincam no território
árido dos abrigos.

Agitam os membros e rebolam
no passar do tempo,
desconfiados no canto das órbitas espirais.

As pupilas cativadas passam
à contemplação
alerta, e contemplan-se:
ele, ela, a passagem, o tempo.


8 de Setembro de 2011

tordos

O som dos pássaros acompanha-me
quotidianamente e ouço-os mesmo
no silêncio.

São asas que me fogem entre os dedos
que as não ousam buscar, e ideias
transmitidas de janela em janela,
era em era.

Durante o dia, ouço-os entre o ruído
e à noite fecho esse som

entre suspiros. Os pássaros
cantam a manhã, cantam todas as manhãs,
tão breves como a carne,
cantam a tarde e o fim da tarde,
e sobrevivem uns nos outros pela melodia, da morte
do dia ao outro dia.

20 de Junho de 2011

joeira


O espírito envelheceu
e isso traz-me alegrias,
pois que tenho a perder
senão a vida, que se esvai
inapelável? Punhados
de sol que vou gastando.


11 de Fevereiro de 2011

sopro incandescente

Damos por nós
e está a passar
já quase passou

um consolo
quando tiver passado
já não darmos por nós

dou-me
um consolo
poder dar-me
de passagem

6 de Fevereiro de 2011

para quê países

Já perdi tantos versos hoje,
ou devo dizer flores?

Fragrâncias de palavras como tu
de partida, voltarão com diferente peso
e frescura — emersas de águas e pós
cruzadas em pontes e caminhos
distantes, agora próximas
do teu coração.

Mas a boca será a tua.

(des)espera


Tanto eu como o sábio,

tu e o outro,

podemos apenas ter paciência.


Tudo o mais não nos pertence

por inteiro.


30 de Setembro de 2010

algures num sonho a verdade dura


Viajavam pelas ruas
da cidade
e por caminhos até aos campos
e às vezes
ao mar.

Em celebração da vida riam-
-se das flores e do suor.

Observavam os bichos com
atenção e esperavam
que fosse sempre assim.

Sabiam que havia muita
maldade mas procuravam
a beleza —

traindo os sonhos
mais desejados
com a sua concretização.


13 de Setembro de 2010

máxima mínima

pretender não ter medo
da morte é essencial
(e da miséria
e da vergonha) –
para ser alguém
vivo, vivo
de vida
boa.


2 de Setembro de 2010

pó de alba


Por vezes acordo
com uma sensação de vazio sobre o dia
que se segue. E continuo sonhando,
esquecendo-me
no sono que é réstia apenas,
sombra de uma luz que cobre
a irrealidade dura que desperta
e me arrasta com ela.

Pelos olhos que me deparam
substâncias translúcidas emitidas
pelas sensações, leio como se lê um friso
cronológico na memória, procurando
uma resposta para esta manhã: mas
nenhuma teoria funciona inteiramente,

as coisas permanecem
iguais e não são aquilo
que quereríamos que fossem,
os olhos são os meus e não os vejo,
tenho-os — como as coisas não são
também aquilo que são; como
uma teoria deixaria de o ser
se funcionasse inteiramente

— seria aquilo que é,
já não a sua descrição.

A noite é um rio que vai dar ao dia, e
o dia um respigar de luz que se funde nela.

A manhã, em que por vezes o mundo
desperta obscuro na crescente claridade,
e doutras se revela evidente e agudo
na escuridão em que amanhece,
está nos nossos olhos — tingida.